Mato Grosso, 09 de Junho de 2026
Esportes

'Paz e amor', Lisca quer repetir no Ju 'ciclo vitorioso' dos tempos de Inter

04.05.2013
12:04
FONTE: Globo Esporte

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Durante mais de uma década, ele andou pelos corredores do Beira-Rio. Frequentou vestiários, conviveu com funcionários e dirigentes. Pisou no gramado, treinou - e ajudou a revelar - um punhado de jogadores. Começou tudo com 18 anos. O primeiro emprego, a primeira experiência. Agora, aos 40, está do outro lado. Técnico do Juventude, Lisca encara o clube que o formou na final da Taça Farroupilha, o returno do Campeonato Gaúcho, neste domingo, em Caxias do Sul.

Foi no Inter, há mais de 20 anos, que o porto-alegrense Luiz Carlos Cirne Lima de Lorenzi iniciou sua vida no futebol. Antes, aventurou-se no vôlei e na natação, como atleta. Para seguir no esporte, cursou a faculdade de Educação Física. O primeiro estágio, quando recém atingia a maioridade, foi justamente no clube que hoje é adversário. As escolinhas foram o primeiro passo. E as responsáveis pelo "amor à primeira vista" pela profissão, como o próprio define.

Oriundo de família afortunada, Lisca sofreu um choque de realidade ao conviver com garotos pobres, humildes, para os quais o futebol é uma das poucas esperanças de vida mais digna. Foi também jovem que foi aprendendo a lidar, como pessoa, com os futuros jogadores.

- Passei a conviver com uma classe social bem diferente da minha. Isso me abriu situações como pessoa, evoluí como cidadão. Vim de uma família rica, com condições, por isso é mais complicado ir atrás e conviver com outra situação social. Com 18 anos, resolvi sair de casa e, nisso, o futebol me ajudou muito - conta.

Foi na sua segunda passagem pelo Colorado, a partir de 1996, que viu as categorias de base do clube mudarem. A partir de uma transformação de mentalidade, vieram os investimentos progressivos. Daniel Carvalho, Rafael Sobis, Nilmar, Alexandre Pato, Fábio Rochemback... Todos saíram dos níveis iniciais do Inter. Mais: todos passaram por Lisca.

Antes, no entanto, encarou momentos difíceis com os meninos. Como até a falta de uniformes específicos para os treinamentos.

- Depois de 1997 o Inter passou a ter investimentos na base, o que fez com que o clube evoluísse muito, souberam aproveitar a produção e transformar em negócio. Formou-se um círculo vitorioso do qual pude participar. A base evoluiu de tal maneira que, hoje, é considerada uma das melhores do Brasil, em metodologia e estrutura. Vi toda essa evolução, desde quando não tinha calção pra treinar - relembra.

Lisca e Inter: uma relação de família
A relação de Lisca com o Inter começou bem antes da década de 1990. Antes de ingressar no clube como profissional, já ouvia entre os próprios parentes as histórias do Beira-Rio. Algumas, há distantes décadas, desde os tempos de Rolo Compressor (time histórico dos anos 1940 e 1950), quando seu bisavô trabalhou com a equipe colorada. Uma geração mais tarde foi a vez do seu avô ganhar uns trocados com a camisa vermelha, como goleiro reserva do grupo.

Neste cenário, é difícil visualizar o atual técnico alviverde distante do Beira-Rio. Não é à toa que, mesmo longe algumas dezenas de quilômetros, segue em contato permanente com ex-dirigentes colorados. Fernando Carvalho é um deles.

O presidente campeão do mundo, inclusive, conversou com o amigo no final de semana, antes do confronto do último sábado, quando o Juventude eliminou o Grêmio nos pênaltis e garantiu sua vaga na final da Taça Farroupilha. As mesmas dicas passadas naquela ocasião, no entanto, não chegaram a Caxias do Sul nesta semana. O adversário, agora, é outro.

- Tenho conversas a nível de trabalho com os dirigentes, trocamos ideias. Falo bastante com o Carvalho sobre evolução de sistemas táticos, como se joga futebol e como se jogava. Ele é um diretor, mas que tem visão de futebol. Trabalhei muitos anos no Inter, conheço todo mundo, trabalhei com todos os presidentes. Sempre que vou ao Beira-Rio sou muito bem tratado - diz.

Lisca 'Paz e Amor'
Intempestivo, direto, objetivo, sem meias palavras. Esse é Lisca. Que coleciona alguns episódios curiosos. Como a vibração com direito a escalada no alambrado com a classificação diante do Grêmio, no sábado. Ou a expulsão contra o Inter pela última rodada da fase de grupos do returno do Gauchão. Ou indo mais além, voltando a 2011, quando treinava o Caxias e explodiu em críticas ao ver seu time perder a Taça Piratini apar o Grêmio após oito minutos de acréscimos concedidos pelo árbitro da partida - coincidentemente, o mesmo que apitará Inter x Juventude no domingo, Márcio Chagas da Silva.

O episódio voltou a sua mente no sábado passado, ao suplantar o Tricolor:

- Hoje (sábado à noite) não teve o que fazer, não teve seis minutos de acréscimos (os outros dois minutos vieram após o gol de empate do Grêmio, que levou a decisão para os pênaltis).

Mesmo com o desabafo, garante estar em um momento mais tranquilo. A vida o ensinou a se preservar um pouco mais. Para uma figura pública, as palavras têm poder ainda maior. Por isso, a cautela.

- Vivemos em um mundo politicamente correto. Já me atrapalhou de falar o que penso, mas é o meu jeito. Fui aprendendo e tenho me preservado mais - avalia.

Futebol mesmo longe do futebol
Pai de duas meninas e casado há 11 anos, Lisca divide até o tempo livre entre a família e futebol. Caseiro, o treinador de 40 anos aproveita, quando não está nos estádios ou centros de treinamentos, para acompanhar as pequenas Giovanna, de três anos, e Antônia, de seis, em praças, zoológicos e parques aquáticos. A programação de lazer passa pela escolha dos menores membros da casa. O gosto por shows do casal, inclusive, precisou ser deixado de lado para atender as vontades das garotas.

Mesmo assim, quando não está passeando com as mulheres de sua vida, o técnico usa suas horas disponíveis em casa para seguir trabalhando. Revê vídeos de treinamentos, acompanha jogos de futebol na televisão, lê sobre o assunto. Tudo para aperfeiçoar ainda mais o que demonstra em campo. O objetivo? Chegar mais longe, alçar conquistas maiores do que os limites do Rio Grande do Sul podem proporcionar. Em um futuro próximo, quem sabe, quer comandar uma das 20 equipes de Série A de Brasileirão.

- Estou me preparando para isso há 22 anos. Já tenho uma boa história, tenho pessoas que me conhecem, que conhecem futebol e que podem me ajudar. Mas, no momento, tenho contrato até o fim da Série D pelo Juventude e vou cumpri-lo - projeta.

Técnico ajuda a resgatar orgulho alviverde
A caminhada iniciou em meados de março. Os passos, ainda pequenos, eram rumo à retomada do orgulho alviverde. O salto maior ocorreu no último sábado, com a eliminação do gigante Grêmio no Alfredo Jaconi. Agora, o Juventude espera concretizar o trajeto vencendo também o Inter, desta vez, no Centenário.

No começo do ano, o clube da Serra sofreu com o excessivo números de empates e viu, por detalhe, escapar a classificação para as quartas de final da Taça Piratini. Ficou pelo meio do caminho. Poderia ser o começo de uma mudança. Afinal, foi um mês de "descanso", longe de qualquer tipo de competição ou partida.

Mesmo assim, a direção do Ju acreditou no trabalho de Lisca, manteve o grupo de jogadores, trouxe apenas um reforço (o lateral-direito Spessatto) e deu sequência no projeto. Funcionou. Agora, terá a chance de disputar sua primeira final de turno desde que o novo modelo do Gauchão foi instaurado, em 2009. E, se vencer, jogará pelo título regional.

Um resultado positivo pode reviver a paixão do torcedor e trazer de volta o orgulho daquele que viu sua equipe ser até protagonista em cenário nacional. Desde 2007, quando foi rebaixado para a Série B, após 13 anos entre os melhores do Brasil, o clube sofre com seguidas derrotas e a incapacidade de voltar a ser a grande equipe que rivalizava à altura com os dois grandes do futebol gaúcho, Grêmio e Inter.

- O Juventude vem muito sofrido nos últimos anos, há muita lamentação, muito foco no negativo. Nesse momento positivo procuramos valorizar para o torcedor, para ele se acostumar a ver as coisas boas. Foi uma festa de recomeço, de retomada - vibra Lisca, da mesma forma como o fez na semifinal da Taça Farroupilha deste ano, ao correr para o alambrado que separa gramado de arquibancada para comemorar junto ao torcedor, com a mesma alegria daquele que estava do outro lado.

Quem é Lisca
Luiz Carlos Cirne Lima de Lorenzi
Idade: 40 anos
Natural de: Porto Alegre
Treinou, profissionalmente,
Ulbra, Brasil-Pe, Porto Alegre, Luverdense, Caxias, Novo Hamburgo e Juventude

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