A negociação entre Inter e Adriano, descartada pelo clube na tarde de segunda-feira, não apenas frustrou a parte da torcida que gostaria de ver o centroavante em Porto Alegre. Expôs, desde o início, a divisão de opiniões na direção e no departamento de futebol do Colorado sobre o jogador. Mesmo com as tratativas bastante avançadas e alguns elogios a Adriano, havia também grande receio pelo seu passado de problemas e desconfiança de plena recuperação clínica e física.
Uma novela de alguns dias, com veto interno, negativas públicas, esconde-esconde e desfecho surpreendente. Momentos relembrados e detalhados pelo GLOBOESPORTE.COM e que revelam um Imperador que jamais fora majestade na corte vermelha.
Primeiro contato no início do ano
O assunto Imperador levantou o debate entre o presidente Giovanni Luigi, os dirigentes de futebol e a comissão técnica. Logo no início do ano, emissários ofereceram o jogador ao clube gaúcho, que não deu andamento nas conversas. Não satisfeitos, esses agentes voltaram à carga há cerca de dois meses.
Desta vez, a recepção não foi tão complicada. O diretor de futebol e primeiro vice-presidente do Inter, Marcelo Medeiros, apoiou a empreitada. Porém, ainda teve que enfrentar a resistência de Luigi e Luís César Souto de Moura. O mandatário era cético quanto ao histórico turbulento do jogador. O parceiro de Medeiros no futebol, depois, acabaria também aderindo ao projeto, assim como o assessor de futebol Eduardo Hausen.
Dunga abre o jogo aos microfones
Embora tenha alijado Adriano da lista final da Copa do Mundo de 2010, Dunga sempre gostou do jogador, que era nome constante em suas convocações. O vazamento de informações não diminuiu a cautela da direção. Ninguém assumia a possibilidade de contratação. Sustentavam o discurso de “não falar em especulações”. Mas Dunga foi na contramão e o referendou publicamente, em 16 de junho:
- Todos merecemos uma segunda chance. Pode ser ou não ser aqui. Se o Inter achar que pode dar esta oportunidade, precisa ver se está pronto para lutar contra as oposições. Somente assim o clube tem que trazer o Adriano. A capacidade dele é indiscutível, mas o clube tem que estar ciente que terá restrições. Se quer lutar contra isso ou não.
Luigi é convencido...
O conservadorismo de Luigi acabou demovido na reunião da segunda-feira, 17 de junho, que contou com Marcelo Medeiros, Dunga, seu auxiliar Andrey Lopes e os empresários que desejavam colocá-lo no Beira-Rio. Nela, o mandatário deu carta branca para a tratativa avançar. Na saída do encontro, Medeiros, surpreendido pelos repórteres que faziam campana em frente ao portão que dá acesso à presidência, admitiu as tratativas entre o clube gaúcho e o Imperador:
- Quando um jogador do quilate de Adriano diz que deseja atuar no Inter, causa um impacto.
No dia seguinte, foi a vez de o presidente falar sobre o tema. Sempre discreto, Luigi baixou a guarda. E negou que fosse contrário ao negócio:
- É um assunto que está sendo tratado pelo departamento de futebol. Mas em nenhum momento fui contrário à contratação. Foi um dos nomes colocados em uma reunião.
A situação, entretanto, merecia toda atenção do Inter. Os dirigentes, mesmo os mais otimistas, ressaltavam a necessidade de realizar um contrato de risco. Ficou definido que Adriano assinaria por seis meses e receberia um bônus por efetividade. Mas era preciso estipular cláusulas. Qualquer deslize não seria tolerado e uma rescisão ocorreria caso o atacante violasse a conduta.
... mas ainda existia a dúvida do tendão
E não só isso. O tendão de Aquiles do pé esquerdo ligava o alerta de todos. Existia um temor de que o local, que passou por dois procedimentos cirúrgicos, não estivesse totalmente recuperado e demandasse de mais tempo do que o Inter poderia esperar.
- Aquele tornozelo precisa ser bem avaliado. Não podemos contratar um jogador que precise de 70 dias para se recuperar - afirmou uma fonte consultada, próxima à direção, na véspera do exame que selou o destino do Imperador.
Até por isso, o clube se cercou de todos os cuidados. O exame estava previsto para ocorrer na última quarta-feira em São Paulo. A ideia era fazer a análise sem chamar a atenção. Mas o nome Adriano ecoou em todos os noticiários. E, assim, o Colorado definiu fazer no Rio de Janeiro, sem tanto motivo para mistério. Só faltava definir a data e o local. Os gaúchos pretendiam fazer na clínica de Luiz Runco, médico do Flamengo e da Seleção. Porém, para o Imperador passar pela esperada ressonância, foi definida a Clínica de Diagnóstico por Imagem (CDPI), no Leblon.
No final de semana, quando tudo se apontava para um final feliz, Luigi, mesmo já disposto a aceitar o Imperador, ainda duvidava de que a consulta mostraria uma recuperação plena.
Inter organiza comitiva ao RJ
Agora entusiasta da empreitada, Souto de Moura organizou a "Operação Adriano". Formado em Medicina, designou o diretor médico, Paulo Rabello, e o fisiologista Luiz Crescente, para analisar Adriano na manhã da última segunda-feira. A dupla, junto com os emissários que intermediavam a transação com o empresário de Adriano, Luiz Cláudio Menezes, o Luca, partiu à Cidade Maravilhosa no início da manhã.
Então, veio o momento do exame. Após três horas, o centroavante deixou a clínica otimista:
- Claro que estou animado. Fiz todos os exames que precisava fazer e agora estou esperando uma ligação para viajar a Porto Alegre. Não vejo a hora.
A negativa
Só restava o parecer dos médicos. O departamento de futebol estava entusiasmado com o desfecho. Foi então que, ao final da tarde, Souto de Moura falou com Rabello, ainda no Rio de Janeiro. O namoro se encerrava. O tendão estava recuperado, mas o tempo para recondicioná-lo fisicamente seria longo demais. O fato não foi o único, é verdade. O dirigente revelou que não ocorreu um acerto financeiro entre todas as partes envolvidas, que estava demorando para ser solucionado.
- O Internacional se retira da negociação pelo Adriano. A avaliação realizada pelos nossos médicos mostra que seria demandado um tempo que o Internacional não pode esperar - disse Moura.
O Imperador não era a única "carta na manga" da direção para reforçar o grupo de Dunga em busca do sonhado Brasileirão. Tanto que contratações devem ser apresentadas ainda nesta semana. Júlio Baptista, que esteve próximo de um acerto, mas viu a negociação esfriar após a primeira pedida, segue nos planos.