Mato Grosso, 19 de Agosto de 2019
Esportes
Como o Liverpool transformou o improvável em inacreditável em noite definidora do que é o futebol
08.05.2019
08:00
FONTE: Globo Esporte

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  • Foto - Getty Images

Há momentos tão únicos que são capazes de resumir, sem muitos meandros, o que é ser humano. O primeiro beijo. O "sim" no altar. A primeira vez do filho no colo. São momentos definidores dessa experiência tão única que é viver. Jurgen Klopp, Alexander-Arnold, Origi, Wijnaldum e cia conseguiram acrescentar um outro momento à lista. Porque o que aconteceu em Liverpool hoje é um resumo perfeito dessa louca fantasia que é o futebol.

 

Todos os ingredientes necessários para algo ser histórico estiveram com o Liverpool neste jogo. Teve superação estava lá, ao jogar sem as estrelas Salah e Firmino. Os gols tiveram um timing impressionante: um no início, para fazer o impossível parecer mais crível, e dois matadores antes dos 55 minutos. Teve perigo, porque qualquer adversário com Messi requer preocupação. Teve malandragem, como a bola rápida de Arnold. Teve festa e torcida.

 

Teve futebol. Foi uma noite definidora também de como o jogo é feito na cabeça dos técnicos, jogadores e nos treinos diários. Um time busca maximizar suas qualidades e minimizar seus defeitos para vencer. Para isso, é preciso ter um plano, uma estratégia, que busca sempre dois princípios: com a bola, agride e abre espaços no rival. Sem ela, neutraliza o oponente e fecha seu gol.

 

A bola rolou e esse plano de desenhou de forma clara em Liverpool:

 

A construção do Barcelona começa por Busquets. Ele não pode ter espaço e tempo pra jogar.

 

O lateral que mais sai no Barcelona é Alba. Aproveitar esse espaço pode ser importante.

 

Fabinho é forte nas bolas aéreas. Ele poderia ganhar a segunda bola e lidar rápido ao ataque.

 

Messi não pode receber a bola livre. Se recebe, faz a diferença.

 

Um gol cedo pode meter medo no Barcelona e dar mais espaço pro Liverpool.

 

Pensando que Busquets era o epicentro de organização do time, o Liverpool atuou para não deixá-lo jogar. O 4-3-3 é formado quase que sem pontas, com atacantes centralizados e com grande intensidade defensiva: fecham linhas de passe, pressionam a bola, tentam aproveitar erros e finalizar. Busquets mal recebia a bola e Milner e Henderson saíam lá de trás e corriam, que nem loucos, para não dar espaço. Para ele não ter tempo de pensar uma jogada para Messi concluir.

 

Esse era um dos conteúdos do plano. O outro era permitir que esses atacantes estivessem próximos da área para roubar e acelerar o jogo. Coisa simples: retomou a bola, não pensa em mais nada a não ser correr muito rápido e finalizar quando há chances. No erro de Alba, Mané aproveitou e Henderson fez esse movimento de correr muito rápido, a chamada infiltração. Veja que a jogada é um típico exemplo da reação em cadeira: Busquets tenta cobrir o erro e abre um espaço, Henderson aproveita e atrai a atenção de Piqué, que deixa Origi livre na hora do tapa pro gol.

 

Sabendo que não conseguiria impor o alto ritmo o primeiro tempo inteiro, o Liverpool veio preparado até para errar com Fabinho. Ele foi fundamental para retirar de Messi os espaços que foram tão mortais no Camp Nou. Onde Messi estava, Fabinho pressionava e tentava atrasar seu passe ou sua condução. Isso criava uma espécie de "barreira" para que Matip e Van Dijk fossem o último recurso para tentar para o gol, e ficassem mais posicionados ao invés de participar da pressão louca do time.

 

Com alternância de ritmo - ora acelerava, ora acalmava e tocava mais, o Liverpool controlou o jogo, correu riscos nos 30 minutos iniciais e tinha um plano claro também para chegar a partir de jogadas construídas da defesa ao ataque. Funciona como uma espécie de "paredão": o time força passes até a bola chegar a um dos lados. Quando isso acontece, o lateral do lado oposto, os dois volantes e os atacantes fazem esse cinturão e preenchem a área de ponta a ponta, chegando de frente para o gol, nas costas dos zagueiros.

 

É um padrão de jogo, não uma robotização dos mesmos. Todo e qualquer jogador pode - e deve - fazer diferente. Assim como pode e deve seguir essa estrutura e adicionar toques. O lance do segundo e terceiro gol nascem em jogadas muito semelhantes à figura acima: bola tocada por um lado e invertida para uma área cheia de vermelhos, de frente ao gol

 

Nos dois gols, Wijnaldum fez o mesmo que Henderson lá em cima: correu num espaço vazio antes mesmo de receber a bola. Em pelo menos três, a área estava preenchida com gente do Liverpool. Em várias ocasiões, Fabinho pressionou Messi e evitou que ele ficasse livre ao gol.

 

É tudo muito racional, e ao mesmo tudo muito ilógico. Uma contradição que só existe porque o futebol é feito por e para humanos.

Ideias existem para serem executados. Sem acontecerem em campo, elas não são nada. E é preciso um bocado de habilidades socioemocionais, como resiliência, perseverança, confiança e disciplina, além de disciplinas cognitivas como seguir a ocupação de espaços pautada pelo modelo de jogo. Quando executadas em conjunto, de forma interligada, numa fração de segundo, elas parecem até intuição, porque são automáticas, assim como a respiração ou o batimento do coração.

 

É tudo um jogo de repetição, de crenças, de momentos definidores que certamente não se repetem. Será difícil o que aconteceu em Anfield se repetir na história. Porque, por ao menos 90 minutos, Jurgen Klopp nos mostrou o que faz o futebol não ser apenas futebol para milhões de torcedores e simpatizantes do Liverpool.

 

 

 

 

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