Mato Grosso, 17 de Novembro de 2018
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Cresce consumo de tabaco enrolado à mão, mais forte que convencional
29.08.2018
09:14
FONTE: R7

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    A marca Hi Tobacco, da empresa HBT foi a primeira brasileira a ter o produto Reprodução/Instagram

O tabaco de enrolar deixou de ser "caipira", ganhando um caráter "moderninho". Se antes era típico da área rural, agora conquista cada vez mais adeptos no meio urbano. 

 

De acordo com a última pesquisa do Ministério da Saúde e do INCA (Instituto Nacional do Câncer) sobre o tema, divulgado em 2011, o consumo de tabaco solto abrangia 5,1% da população e de cigarro industrilizado, 14,4%. O consumo de tabaco solto na área rural era de 13,8% e na área urbana, 3,6%.

 

No entanto, o pneumologista Paulo Corrêa, da Comissão Científica de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), afirma que esse cenário mudou. "O uso do tabaco enrolado à mão se disseminou. Não se restringe ao meio rural, é da área urbana também", afirma.

 

Um dos pontos que faz com que o cigarro de enrolar conquiste mais adeptos é o ritual, que engloba o ato de escolher, comprar e enrolar o tabaco antes de fumar, segundo a psquiatra Renata de Azevedo, do Chefe do Departamento de Psicologia Médica e Psquiatria da Unicamp, com atuação na área de dependência química. Ela afirma que esse ritual pode dificultar ainda mais a decisão de parar de fumar.

 

"Os rituais são muito gostosos. O ritual preenche o tempo, relaxa e, às vezes, fica mais difícil de abandonar o próprio ritual do que a substância. Várias pessoas que param de fumar sentem tanta falta da nicotina quanto de tirar o cigarro do maço, acender, ver a fumaça. Quanto mais ritual, mais difícil de ficar sem", diz.

 

O cozinheiro Eduardo Ferreira, 21, de São Paulo, é uma das pessoas que trocaram o cigarro industrializado pelo tabaco de enrolar e valoriza o ritual. “Eu notei algumas diferenças. Sinto que é mais prazeroso por todo o ritual de preparação, de poder apagar e reacender quando quiser”, explica. Para ele, o fato de o tabaco durar mais tempo também é um atrativo.

 

Além de urbano, o tabaco de enrolar ganhou ares de modernidade. Isso se deve, segundo os especialistas, ao estilo de vida associada ao produto "vendida" pelos fabricantes.

 

Se nos anos 1980, as propagandas relacionavam o cigarro a uma vida de aventura, hoje os posts de tabacos de enrolar associam o produto ao estilo hipster - "moderninho". 

 

"Apesar de haver lei que restrinja a propaganda de cigarros aos pontos de venda, a internet se tornou um meio de propagação, seja pelas redes sociais ou por meio de influencers", afirma o pneumologista.

 

A Hi Tobacco, da HBT, que se define como primeira empresa brasileira a vender o produto, utiliza as redes sociais para vender seu produto e sua ideia. 

 

Quando criada, em 2011, a empresa tinha apenas um produto para oferecer ao mercado. Hoje, conta com duas marcas e quatro tipos de tabaco. O público consumidor é formado por jovens e adultos entre 20 e 40 anos, segundo a empresa. "A procura pelo tabaco para enrolar vem sendo cada vez maior no Brasil e o hábito já é muito popular na Europa", afirmou a empresa, por meio de sua assessoria de imprensa.

 

"Acho que esse glamour do tabaco de enrolar é muito mais um apelo para os adolescentes do que para os adultos, pois para eles o cigarro ainda tem seu charme, ainda é uma contravenção", afirma a psiquiatra. "Hoje existe uma discriminação social com o fumante. Temos levantamentos que indicam que a primeira razão para buscar tratamento para parar de fumar é a preocupação com a saúde, ou porque a pessoa já está doente, ou porque tem medo de ficar, mas, a segunda razão, é por mudanças no ambiente, seja no trabalho ou na família. Então, a pressão social exerce um impacto na decisão", completa. 

 

Há um ano e meio o produtor de audiovisual Tiago Marconi, 36, dispensou o cigarro convencional e passou a consumir o tabaco solto. Com a mudança, a quantidade diária diminuiu. Se antes, fumava 20 cigarros por dia, hoje são cerca de cinco. “O cigarro artesanal demora um pouco para ser preparado, e é mais demorado para fumar, porque o conteúdo é mais denso e o papel queima de maneira mais lenta”, afirma.

 

Já para a jornalista Mariana Ribeiro, 29, a troca aconteceu por uma necessidade. Ela conta que fumava, no máximo, quatro cigarros por dia, mas começou a sentir que o organismo não estava reagindo bem e decidiu experimentar o tabaco de enrolar. "Troquei porque o cigarro comum estava me fazendo mal. Eu ficava enjoada, era como se meu corpo estivesse rejeitando o cigarro", conta. Atualmente, ela fuma dois cigarros de tabaco solto por dia.

 

Corrêa explica que um único cigarro artesanal equivale a três convencionais. Se uma pessoa fuma seis ou sete cigarros de enrolar por dia, é como se fumasse um maço inteiro do cigarro tradicional. “Essa equivalência se dá porque o cigarro artesanal é mais forte que o industrializado, possui mais alcatrão e nicotina. E, por não ter filtro, que diminui a emissão de fumaça, o consumidor inala mais esse vapor. Então, o tabaco de enrolar não é mais saudável. Pelo contrário, pode ser tão ou até mais nocivo do que o convencional”, afirma.

 

O pneumologista afirma que estudos mostram que pessoas que fazem uso do cigarro artesanal têm maior probabilidade de desenvolver Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), com quadros persistentes de enfisema pulmonar e bronquite, de maneira mais precoce que aqueles que fumam o cigarro convencional. Ainda não há dados que mostrem os efeitos do uso combinado de diferentes formas de tabaco — com cigarros convencionais, enrolados à mão, ou de palha, por exemplo.

 

Corrêa ressalta que tanto o cigarro industrializado quanto o artesanal contêm mais de 9.200 substâncias e que estudos mostram que quando a pessoa pára de fumar qualquer tipo de tabaco antes dos 35 anos não há redução na expectativa de vida. O pneumologista ainda explica que não há nenhum consumo de tabaco que seja considerado seguro.

 

O cigarro artesanal conta com a alternativa de uso de filtro. Segundo o médico, assim como no cigarro convencional, o filtro bloqueia apenas um grupo de todas as 9.200 substâncias, não diminuindo sua toxicidade.

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