Mato Grosso, 19 de Agosto de 2019
Esportes
Diretor diz que Corinthians precisa vender um ou dois jogadores, mas "não tem problema de dinheiro"
09.05.2019
06:53
FONTE: Globo Esporte

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  • Matias Romano Ávila, diretor financeiro do Corinthians, em entrevista ao GloboEsporte.com — Foto: Bruno Cassucci

    Matias Romano Ávila, diretor financeiro do Corinthians, em entrevista ao GloboEsporte.com — Foto: Bruno Cassucci

O déficit de R$ 18,7 milhões em 2019 e as recorrentes notícias de cobranças na Justiça, que vão da penhora da taça do Mundial de 2012 a uma dívida com uma fornecedora de marmitas, sugerem que o Corinthians vive dias difíceis quando o assunto é dinheiro. Porém, segundo o diretor financeiro do Timão, Matias Romano Ávila, a realidade é muito melhor do que parece.

 

Em entrevista ao GloboEsporte.com, Ávila detalhou as contas do Corinthians, previu fechar 2019 no azul e afirmou que "há vários motivos para estar otimista".

 

O diretor financeiro, porém, não ilude o torcedor e reconhece a necessidade de negociar jogadores na próxima janela de transferências para arrecadar os R$ 50 milhões previstos em orçamento.

 

– Já falei para o Andrés (Sanchez, presidente): "Tem que vender um ou dois pelo menos até o final do ano", senão não vai fechar – disse.

 

Acompanhado de perto pelo gestor financeiro Roberto Gavioli, seu escudeiro, Matias Romano Ávila falou por quase duas horas. Nesta entrevista, o diretor comentou sobre os gastos do Timão com o clube social, opinou sobre a criação da equipe sub-23 e contou algumas melhorias que o clube tem implementado. Assuntos relacionados à Arena Corinthians também foram abordados, mas serão publicados futuramente. Confira abaixo as principais declarações do diretor financeiro do Corinthians:

 

GloboEsporte.com: Como você avalia o momento financeiro do Corinthians?

– Desde que caiu, o Corinthians vem só numa crescente. É claro que você passa por momentos melhores e piores de acordo com o orçamento e a capacidade de pagamento, que é muito relacionado à arrecadação e o momento da economia. Tem anos que você disputa campeonatos, anos em que vende jogadores... Um clube de futebol como o Corinthians é feito para ganhar títulos. Mas você administra o clube para 39 milhões de torcedores e 14 mil sócios, dos quais 8 mil são pagantes. O clube tem esportes amadores, parte social que precisa ser administrada. O futebol é 85% (das despesas).

 

Mas em 2017 e 2018 houve déficit (de R$ 35,1 milhões e R$ 18,7 milhões).

– Não temos nenhuma dívida impagável, a Arena tem um centro de custos diferente. O único compromisso que temos é de toda bilheteria ir para a Arena. O restante das receitas é direto para o clube. O Andrés é muito responsável. Ele colocou um teto de salários, que todos nós respeitamos, que dá uma tranquilidade administrativa. Isso não quer dizer que não há problema entre receitas e despesas.

 

Os torcedores do Corinthians e até o de outros clubes têm uma impressão diferente, visto que frequentemente saem notícias de dívidas do clube, muitas delas sendo discutidas na Justiça.

– Temos duas coisas que não atrasamos. Salário, de jogador e funcionário, e Profut. Imposto às vezes atrasa, cobra e tal. Isso às vezes conturba um pouco. O clube muitas vezes convivem com ações que não têm nada a ver com a atual gestão, coisas de 10 ou 15 anos. Esse processo do Instituto Santanense, por exemplo (que conseguiu a penhora da taça do Mundial de 2012), é de antes do rebaixamento, de 2006. Tínhamos um acordo com a nova proprietária do Instituto, mas o antigo advogado deu continuidade na ação, fomos até surpreendidos.

 

O clube precisa estar preparado para isso, não?

– Muitas vezes isso está provisionado no passivo do balanço, em contingências. São casos que temos grande risco de perder. Mas há casos que não, como este da ação envolvendo o terreno do Parque São Jorge. O risco de perdermos um negócio desses... Não há ação judicial que muda um decreto da Prefeitura!

 

Vamos voltar ao tema anterior. Apesar de todas essas notícias negativas, você parece otimista.

– O Corinthians está bem financeiramente, senão não teria contratado. É exatamente o contrário do que fala um monte de jornalistas aí, que está quebrado, que não tem dinheiro. Essas ações pequenas têm outra conotação, não tem nada a ver com caixa ou orçamento.

 

O orçamento prevê superávit de R$ 650 mil. Você acredita que o clube fechará 2019 no azul?

– Sim. Temos vários motivos para estar otimistas. Temos uma camisa que vale quase R$ 60 milhões. Bilheteria está maior, embora seja um dinheiro que entra e sai (para o fundo do pagamento do estádio). No sócio-torcedor estamos recuperando o que perdemos no ano passado. Isso porque a cobrança é por boleto, tem que ficar recorrentemente cobrando. Estamos num processo de reconstrução da relação, com novas formas de cobrança, débito em conta, em cartão...

 

Este começo de ano está sendo mais tranquilo?

– Administrativamente, o Corinthians está bem. Compramos um monte de gente, temos de pagar a conta. Você vai ver nos próximos balancetes que continua um déficit. Até porque o primeiro semestre é bem deficitário. Você precisa pagar dívidas. Faz um ajuste contábil no patrimônio, mas a dívida continua. E boa parte da receita de TV vem no segundo semestre, por conta do Campeonato Brasileiro. Dentro do nosso orçamento, o primeiro semestre é deficitário.

 

Tem faltado dinheiro neste começo de ano, então?

– Algumas receitas não são mensais, como placa de publicidade, o contrato da Nike... São mensais do ponto de vista contábil, mas no caixa tem um fluxo próprio de acordo com o contrato. Às vezes é trimestral ou semestral. Assim, de vez em quando é preciso tomar dinheiro para pagar a folha que é fundamental e impostos. Quando o dinheiro chega, você liquida. Mesmo assim, reduzimos os custos financeiros (com juros, multas, etc) do ano passado. Saímos de R$ 33 milhões em 2017 para R$ 28 milhões em 2018.

 

De vez em quando é preciso recorrer a empréstimos?

– Não vamos tomar dinheiro para equilibrar o balanço fiscal, de jeito nenhum. Só pegamos dinheiro emprestado para arcar com folha de pagamento e Profut.

 

As demonstrações recentes vinham demonstrando também crescimento da dívida, sem considerar a Arena. Isso preocupa?

– A dívida é de aproximadamente R$ 480 milhões, sendo que R$ 240 milhões são de longuíssimo prazo, coisa de mais de 20 anos. O Corinthians tem uma dívida de curto prazo de R$ 85 milhões até 2021. Para quem arrecada R$ 420 milhões por ano (sem bilheteria), essa dívida é absolutamente administrável.

 

Você parece otimista. A previsão de superávit é real?

– Sim. Não orçamos o título paulista, nem que iríamos estar na quarta fase da Copa do Brasil, por exemplo. Tudo o que entrar de premiação, é extra. Está orçado R$ 50 milhões com transferências de jogadores. Mas vamos vender mais do que isso.

 

Por que tanta certeza?

– Nós já seguramos jogadores no começo do ano. E a gente acha que vende melhor no meio do ano.

 

Você costuma opinar sobre chegada e saída de jogadores? É consultado pelo departamento de futebol?

– A gente não palpita, só é consultado se tem dinheiro em caixa. E quando precisa de dinheiro, aí eu falo. Já falei para o Andrés: "Tem que vender um ou dois pelo menos até o final do ano", senão não vai fechar. E o próprio presidente já disse que não dá para segurar quando o atleta quer sair.

 

O fato de precisar vender jogadores não mostra que a situação está difícil?

– O Andrés poderia endividar o clube para ganhar um ou dois Brasileiros. Nos últimos dez anos ganhamos 13 títulos. Isso aumenta a torcida, faz você ficar mais forte. Mas a Arena e o CT da base não têm preço. Hoje a gente tem 32 meninos em uma casa no Tatuapé, com conforto e bom atendimento. Mas estamos fazendo um CT para 110 garotos, com outra qualidade de vida. A obra do CT da base vai ficar em R$ 12 milhões, com recursos próprios. Esse é o maior legado que o Andrés está deixando.

 

O Corinthians tem direito a 50% do lucro do Meu Corinthians BMG. Como está a adesão ao banco?

– Não tenho os dados ainda, o banco digital foi pro ar há pouco mais de um mês. Mas nós já tínhamos 7 mil contas abertas na agência do BMG antes do lançamento do banco digital.

 

Sempre ouvimos dos dirigentes a necessidade de gerar novas fontes de receitas. O que tem sido feito nesse sentido?

– A nossa preocupação não é com agora. Os mercados de TV e patrocínio estão se transformando. A gente acha que até 2021 esse mercado de exposição da marca vai se transformar muito. Precisamos de receitas para manter o orçamento do clube num patamar que atenda as nossas necessidades e faça com que a gente não dependa tanto da TV. Hoje temos metade da nossa receita relacionada a direito de transmissão.

 

E o que fazer para mudar isso?

– O Corinthians está se preparando, tem uma TV própria. Estamos num processo de conhecimento, aprendizado e desenvolvimento. Não podemos ser surpreendidos com perda de arrecadação. Você não vai sustentar o clube só pela camisa. Como vai ficar? Não sei. Mas temos de estar preparados para ter outras fontes de receitas.

 

Além de gerar receitas, é preciso controlar despesas. Mas elas cresceram no último ano e, agora, o Timão criou uma nova categoria. Qual o custo do sub-23 para o clube?

– O sub-23 é uma etapa do processo de transição que nós consideramos importante. Do ponto de vista financeiro, vai custar pouco, porque os jogadores ganham pouco e muitos já estão lá.

 

Mas poderiam estar emprestados.

– Às vezes, esses caras você empresta sem remuneração, só para dar experiência para ele.

 

O segmento "clube social e esportes amadores" foi o grande responsável pelo Corinthians fechar no vermelho em 2019. Enquanto o futebol teve superávit de R$ 22,4 milhões, as outras áreas apresentaram déficit de R$ 41,1 milhões. Como resolver esse gargalo?

– Futebol feminino, salão, basquete, natação e a base, são peanuts (amendoim em inglês) perante o resto. Você vende um jogador e paga todo o resto. Esse não é o problema. Problema é não poder demitir jogador.

 

Como assim?

– Não podemos mandar jogador embora. Aqui não é uma empresa que, quando estou mal das pernas, demito. Tem que ter cuidado quando compra, limites de salário, uma visão mais organizada das despesas. E controlar e aumentar receita. Às vezes, você compra um jogador e ele não performa. Todos os jogadores que compramos em 2016, quando o time foi desfeito, não estão jogando. E você precisa repor, aí gasta duas vezes.

 

Mas aí é falta de critério nas contratações?

– Muitas vezes a culpa não é do clube, mas do jogador, que simplesmente não encaixa, não joga. Se pudéssemos demitir hoje, o Corinthians seria superavitário todos os meses.

 

De qualquer forma, você diz que o clube social e os esportes amadores não são um problema, mas não é isso que mostra o balanço.

– É muito pouco. Clube social arrecada R$ 14 milhões de mensalidade e gasta R$ 21 milhões. Isso não é nada. Você é eleito por 7 mil votos, mas administra para 39 milhões.

 

Mas tem os esportes terrestres também, que aumentam o prejuízo.

– Tem três clubes no mundo que tem futebol, futebol feminino, futsal, basquete, natação e vôlei. O Real Madrid, o Barcelona e o Corinthians. Isso custa dinheiro. Mas também faz com que você cresça a marca. Isso não nos incomoda, o que mais incomoda é quando o jogador não joga.

 

Não há nada que possa ser feito? Fato é que o Corinthians tem um clube deficitário, enquanto há outros que fecham no azul, como o Pinheiros, por exemplo.

– Como é que o Pinheiros funciona? Não é com associados. Tem projetos incentivados federais e estaduais. Arrumou uma forma de ter o patrocínio do governo. Quando o Corinthians foi entrar na fila, não conseguiu o mesmo patrocínio. Alguns patrocínios nossos estão contabilizados no futebol, mas são da marca. O déficit não está aí (nos gastos com esportes amadores e clubes social), mas na falta de patrocínio de primeira linha para estas modalidades. Estamos melhorando. O basquete cresceu muito, futsal também.

 

 

Além de aumentar as receitas, o Corinthians busca reduzir despesas?

– Sim. Em 2017, gastamos 46% em comissões e participações para outros clubes. Em 2018, caiu para 36%. Isso é importante. O Corinthians não tem problema de dinheiro. Isso é importante. O Corinthians não vai ficar sem pagar a folha nem imposto. Está bem orçado e está controlado, não temos um cara ganhando R$ 1 milhão, R$ 1,5 milhão, nem R$ 800 mil, R$ 700 mil. Temos um teto, não posso falar o valor, mas é abaixo de R$ 500 mil.

 

Qual o seu grande desafio até o fim do mandato do presidente Andrés Sanchez, em 2020?

– O grande desafio da gestão é ter uma governança corporativa. Hoje não sai um centavo sem que seja registrado. Não sai um pagamento se não tiver nota do fornecedor que está no contrato. Não adianta vir com nota de terceiro. Algumas coisas ainda não conseguimos automatizar, como pagamento de arbitragem de esporte amador. Não é culpa nossa. Mas o clube tem uma governança, plano de cargos e salários, conselho fiscal, o CORI (Conselho de Orientação), que olha tudo, as comissões do conselho... E estamos implementando compliance (conjunto de normas e medidas de conformidade). Isso não é de uma hora para outra, mas estamos aperfeiçoando, escrevendo procedimentos e automatizando processos.

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