Mato Grosso, 25 de Abril de 2018
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Hemofilia: você sabe o que é?
28.03.2018
08:42
FONTE: Milene Saddi

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Um pequeno corte pode ser algo corriqueiro para muita gente, mas nem sempre é assim para quem tem hemofilia. Nesse caso, a dificuldade em conter o sangramento pode levar até a uma hemorragia. A doença é causada por uma desordem no sistema de coagulação do sangue: duas proteínas específicas, os fatores de coagulação VIII E IX, que cumprem o papel de ajudar a formar uma espécie de muro de contenção do sangramento ou aquela “casquinha” na pele, que se forma depois de nos machucarmos, não existem em quantidade suficiente.

 

Rara, a doença aparece em 1 de cada 10 mil nascimentos e é genética e hereditária. Porém, estima-se que em 30% dos casos não há a condição da hereditariedade e sim uma mutação espontânea e inédita do gene.

 

Hemofilia: uma doença de meninos

O gene que causa a hemofilia é transmitido pela mãe, pelo par de cromossomos sexuais XX, e acomete prioritariamente homens. Isso porque eles recebem um cromossomo X da mãe e um Y do pai – se o X estiver comprometido, ele vai manifestar a doença. Já as mulheres recebem um X da mãe e um X do pai, o que faz com que elas sejam apenas portadoras da doença. Para desenvolver a hemofilia, a mulher deve apresentar a mutação nos dois cromossomos X, o que é bem mais raro. Quando acontece, ela geralmente é portadora sintomática – hemofílicas verdadeiras são ainda mais raras. Os sintomas costumam ser mais brandos que os do homem. A menstruação, porém, pode se intensificar e, nesses casos, é possível tratar com inibição. Hemofílicas podem engravidar, mas precisam de acompanhamento constante, inclusive no parto, tomando reposição de fator antes e depois.

 

Tipos de hemofilia

A hemofilia é dividida em dois tipos e três categorias. Quem tem hemofilia do tipo A possui deficiência do fator VIII de coagulação do sangue. No tipo B, a deficiência é do fator IX. A hemofilia A é mais frequente do que a B; no Brasil, corresponde a 80% dos casos registrados. Nas categorias, a doença pode ser grave (quantidade de fator menor do que 1%), moderada (de 1% a 5%) ou leve (acima de 5%).

 

O sintomas da hemofilia: como reconhecer

Bebês de famílias com histórico de hemofilia geralmente são acompanhados desde o nascimento para detectar a doença. Mas, no geral, o sangramento é o principal sinal.

 

Nos quadros leves, a doença pode passar despercebida até a fase adulta. Esses sangramentos acontecem por conta de cortes externos, como em cirurgias e extração de dentes. Os cortes superficiais demoram, mas cicatrizam sozinhos.

 

Já nos casos graves e moderados, as crianças começam a manifestar a doença no primeiro ano de vida. Os sintomas mais comuns são manchas roxas na pele, chamadas equimoses, que podem ser ocasionadas por atos simples como deitar o corpo sobre o botão de pressão do macacão, por exemplo. Quando a criança começa a andar e cair, os hematomas ficam mais frequentes. Além de manchas roxas na pele, é preciso ficar atento a outros sinais, como sangramentos no nariz e gengiva, sangramentos incomuns após vacinas e circuncisão, cortes cujo sangramento não estanca e sangue na urina e nas fezes.

 

Ao observar qualquer um desses sintomas, vale conversar com o pediatra do seu filho para saber se não é o caso de fazer uma investigação mais profunda.

 

Meu filho tem hemofilia: o que fazer?

“A primeira providência é checar a gravidade da doença. De 1 a 3 anos de idade, a criança hemofílica requer mais cuidados, que vão mudando à medida que crescem, pois é possível progredir com o tratamento”, explica Ana Clara Kneese, hematologista da Santa Casa de São Paulo. Para obter o diagnóstico correto é preciso coletar sangue e medir a dosagem do nível dos fatores. “Não há cura para a doença, mas há tratamentos preventivos cujo objetivo é garantir ao paciente maior qualidade de vida, explica Rodrigo Luiz Yamamoto, médico fisiatra da Rede Lucy Montoro, parte do Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas (USP).

 

Além das equimoses, que são as manchas roxas na pele, pessoas com hemofilia podem ter sangramentos internos, que prejudicam as articulações. Isso pode ser causado por traumas, como batidas ou quedas, que acontecem na maioria das vezes em músculos e articulações submetidos a pressão. Até movimentos triviais, como descer escadas, pular ou mesmo cair sobre uma parte do corpo, também levam ao quadro. Joelhos, cotovelos e tornozelos costumam ser as articulações mais afetadas. É bem mais raro, mas também pode haver sangramento espontâneo no intestino, rim ou no sistema nervoso central.

 

Se não for corretamente tratado – reposição do fator, imobilização, aplicação de gelo, repouso de 24 horas e fisioterapia –, o sangue que invade as articulações pode criar um processo inflamatório e acarretar novos sangramentos, comprometendo a constituição dos tecidos na região afetada. Com o tempo, o desgaste das cartilagens pode provocar lesões ósseas que, como consequência, comprometem o movimento, como não conseguir mais dobrar os braços ou as pernas. Os sinais são dor forte, aumento da temperatura no local e inchaço. “É preciso ficar atento aos bebês que ainda não falam. A criança vai chorar, vai tentar proteger a área machucada com as mãos e não vai se apoiar naquela articulação”, orienta Yamamoto.

 

Hemofilia tem cura ou tratamento?

A hemofilia é uma doença sem cura. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda a adoção da profilaxia para o tratamento, que inclui reposição do fator faltante e condicionamento físico.

 

O paciente deve ser cadastrado em um centro de tratamento – os hemocentros – para receber a reposição do fator, o que pode acontecer com mais ou menos frequência, dependendo da gravidade da doença e dos episódios de sangramento. “A reposição do fator é intravenosa e, dependendo da situação, acontece várias vezes na semana. É um tratamento para a vida, que demanda muito, não só do paciente, mas também da família. Por isso é importante criar um vínculo com o tratador”, explica Ana Clara.

 

O paciente também deve ser treinado para aplicar dose de urgência em casa, caso os sintomas apareçam. O fator é liofilizado, ou seja, um pozinho que deve ser dissolvido em solvente específico e aplicado na veia. Se o paciente for uma criança, são os pais que recebem o treinamento para a aplicação.

 

Pessoas com hemofilia podem desenvolver anticorpos que reagem ao fator reposto – são os inibidores. Há medicação específica para esses casos, que costumam se manifestar até a 50ª dose de reposição, mas também podem aparecer mais para frente.

 

Em paralelo, na área de terapia gênica estuda-se a possibilidade de modificar o gene para que ele comece a produzir os fatores faltantes. Esses estudos se mostram mais avançados para a hemofilia do tipo B.

 

O esporte pode ajudar

Fortalecer os músculos e, em alguns casos, usar palmilhas também fazem parte da prevenção. O objetivo é proteger as articulações e os próprios músculos de sangramentos por impacto. Para isso é preciso fazer exercícios físicos, sempre orientados por um fisiatra. Fisioterapia, musculação e natação são indicados. Por outro lado, esportes de contato, como futebol e judô, e modalidades que oferecem risco de queda, como bicicleta e skate, são contraindicados. “A partir dos 10 anos, trabalhamos com as crianças em aparelhos de academia. Antes dessa idade, há fisioterapia, terapia ocupacional ou atividades lúdicas como opção”, diz Yamamoto.

 

Casa segura

A casa também precisa de cuidados para preservar a criança pequena que tem hemofilia. Para minimizar riscos, deve-se providenciar cantoneiras para as quinas pronunciadas e acolchoados para as laterais do berço ou da cama. “Para os casos graves, deve-se evitar traumas e quedas. Quando a criança iniciar a marcha, período em que cai muito, os pais podem colocar proteção nos joelhos e cotovelos, e providenciar piso acolchoado, como os tapetes de EVA”, orienta o fisiatra.

 

Tire seu filho da bolha

Ao descobrir a manifestação da doença no filho, é comum que as mães tenham uma sensação de culpa por ter transmitido o gene. Nesse caso, elas são encaminhadas a um psicólogo. “Não precisa se culpar. A gente conversa muito com elas porque isso pode trazer outro problema para criança, que é a superproteção”, diz Mônica Cerqueira, coordenadora do Grupo de Coagulopatias Hereditárias do Hemorio. “Não se deve criar uma redoma em torno da criança. Ela tem de ser criada com cuidados, mas de forma natural”, completa.

 

Hemofilia no Brasil

Os dados mais recentes divulgados pelo Ministério da Saúde são de 2015 e revelam que há 9.908 pacientes com hemofilia A no país e 1.948 pacientes com hemofilia B.

 

Dos diagnósticos de hemofilia A, 39,36% referem-se à forma grave da doença; 24,67% à forma leve e 23% à forma moderada. Para o tipo B, 32,60% dos diagnósticos estão dentro da categoria moderada; 32,08% à grave e 21,97% à leve. Em ambos os casos (A e B), há uma taxa de 13% sem informação sobre a gravidade.

 

Por aqui, o concentrado de reposição passou a ser oferecido nos hemocentros de forma regular somente a partir dos anos 1990. O tratamento progrediu muito. “Há trinta anos, era preciso colher plasma de muitos doadores para obter o fator em quantidade suficiente para todos os pacientes, e as doses de emergência, que hoje o hemofílico leva para casa, não existiam”, conta Monica.

 

Um passo para frente e outro para trás: quando os concentrados de fator liofilizados apareceram, na década de 1980, os hemocentros não eram tão mais dependentes de doadores, mas se viram aterrorizados pelas contaminações por doenças como HIV e hepatite C. Na época, ficou famoso, no Brasil, o caso do cartunista Henfil, que tinha hemofilia e morreu de AIDS, contraída em tratamento, em 1988. Hoje os concentrados são esterilizados, o que torna o tratamento muito mais seguro.

 

No mais, a compreensão de que os exercícios de fortalecimento são essenciais para evitar sangramentos internos foi definitiva para aumentar a expectativa e melhorar a qualidade de vida do paciente. "Antigamente, quando a criança não fazia a profilaxia primária, ela se machucava demais e as consequências eram piores. Usava-se botinha ortopédica para estabilizar as articulações. Hoje, com o condicionamento físico, os hemofílicos conseguem envelhecer - e com alguma qualidade de vida”, completa Ana Clara.

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