Mato Grosso, 17 de Julho de 2019
Variedades
Peixes de água doce terão que comer mais detritos e vegetais para sobreviver ao aquecimento global
12.07.2019
10:49
FONTE: G1

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  • Estudo observou a influência da temperatura na relação entre o tamanho do organismo dos peixes e a sua função no ecossistema

    — Foto: Carl Findahl/Unsplash

A elevação das temperaturas do planeta por causa do aquecimento global fará com que algumas espécies de peixes de água doce tenham que alterar seus hábitos alimentares e comer mais vegetais e detritos para sobreviver, prevê um estudo de pesquisadores brasileiros publicado na revista "Ecography" na segunda-feira (8).

 

Eles estudaram peixes de grande porte que vivem em ambientes de água doce tropicais. Essas espécies precisam de mais energia e têm uma alimentação diferente dos peixes de mesmo tamanho que vivem no mar ou em ambientes temperados, mais frios.

 

São peixes que terão de se adaptar a temperaturas mais altas.

 

O estudo observou a influência da temperatura na relação entre o tamanho do organismo dos peixes e a sua função na teia alimentar. Após analisar 3.635 espécies de peixes, pesquisadores preveem que, entre outros possíveis impactos, o aquecimento global pode influenciar a dieta das espécies num futuro não muito distante.

 

O estudo foi realizado por uma equipe liderada pelo professor José L. Attayde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e por Danyhelton Dantas, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Amazônica (Cepam).

 

“O tamanho do corpo de um animal, mais especificamente de um organismo aquático, tem um papel fundamental na determinação de suas relações alimentares”, diz Dantas, em nota de divulgação do estudo.

 

Cadeia alimentar e temperaturas

Um dos co-autores, o pesquisador Ronaldo Angelini, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), explicou que "os ecossistemas marinhos permitem às suas espécies se deslocarem mais e encontrarem outras fontes de energia, o que as afetaria menos comparativamente às espécies de água doce". Ele conta que a diversificação alimentar deve se tornar uma vantagem para os peixes, assim como já é para os humanos.

 

Por isso, as espécies de água doce serão as mais impactadas nesse aspecto. Aquelas que não se adaptarem às novas condições, correm sérios riscos. Conforme o estudo, o clima não afeta na mesma proporção a posição dos peixes de água salgada na cadeia alimentar.

 

Segundo Rafael Guariento, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), os peixes de água doce não têm muita opção: "usam a energia dos estratos mais baixos da cadeia alimentar, incluindo em sua dieta alimentos ricos em carbono como folhas, frutos e sementes, possivelmente provenientes do ambiente terrestre”. O carbono é a fonte de energia para o metabolismo dos organismos vivos.

 

Como os peixes maiores basicamente "engolem" peixes menores para se alimentar, eles têm uma posição mais alta na cadeia alimentar. "Mas aí temos outro problema: quanto maior o corpo, maior a necessidade de energia”, explica Dantas.

 

Em águas com temperatura mais alta, como nos ambientes tropicais, os peixes tendem a gastar mais energia. Portanto, precisam comer mais carbono do que aqueles peixes de mesmo tamanho que vivem em climas temperados, mais frios.

 

Por isso, eles acabam se alimentando de plantas e detritos ricos em carbono. Uma evidência disso é o fato de que há mais espécies aquáticas herbívoras e onívoras nos trópicos. Em outras palavras: a temperatura tem um impacto na comida aquática disponível para os peixes.

 

Ambientes marinhos e de água doce

Segundo Adriano Caliman, da UFRN, e um dos principais co-autores do trabalho, ninguém ainda tinha testado o efeito da temperatura na relação: tamanho do corpo × posição na cadeia alimentar dos peixes.

 

Os cientistas também compararam, em escala global, essa relação em ambientes marinhos e de água doce, pois são dois tipos de ambiente "estruturalmente muito distintos". Para isso, usaram dados de um sistema mundial com informações sobre peixes, o Fishbase.

 

De acordo com Luciana Carneiro, também da UFRN, esse trabalho dos brasileiros mostra uma tendência clara: “Se o mundo ficar mais quente, as espécies evoluirão limitadas pela maior demanda de energia, mais especificamente de carbono, e precisarão comer mais vegetais e detritos."

 

Carneiro observa que essa dinâmica tornará as cadeias alimentares mais curtas, especialmente em ambientes de águas doce tropicais. "Mas, provavelmente, nem todas as espécies terão tempo para se ajustar às novas condições”, completa.

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