Em meados da década de 1990, havia em Londrina um goleiro apelidado Aranha. Ele gostava de jogar adiantado no gol. Queria participar também da troca de passes do time. Pedia a bola, mas os companheiros não confiavam muito. Na época, o arqueiro, de camisa preta e calça, já havia parado de atuar profissionalmente e matava a saudade do futebol em torneios com ex-jogadores. Quase 20 anos depois, ele voltaria a ser Rogério Micale, o responsável por comandar a seleção olímpica de futebol masculino em mais uma tentativa de conquistar a inédita medalha de ouro.
- Eu estava fininho ainda, né? Eu fazia algumas coisas com os pés, sempre jogava um pouco mais adiantado, arriscado até. Falava para o pessoal jogar a bola, só que eles não confiavam muito – lembrou Micale, ao ver as imagens.
O baiano Mário Rogério Reis Micale nasceu em 28 de março de 1969 em Salvador, na Bahia, mas foi ainda adolescente para o Paraná. Em Londrina, iniciou a carreira na Portuguesa. Depois, passou por Londrina, Apucarana e Operário de Ponta Grossa. Mas aposentou as luvas com 23 anos. A filha havia acabado de nascer, a distância para os treinos era cada vez maior e ele desistiu. Mas manteve o sonho de treinador.
Conheça um pouco mais do técnico que pode entrar para a história do futebol brasileiro:
O Aranha
De camisa preta e calça, Micale logo garante que o apelido não era uma ironia nem tinha a ver com o russo Lev Yashin, seu “xará”. Durante o período profissional, atuou com Robertinho, ex-jogador do Londrina, um pouco mais velho, que fez parte do elenco que chegou às semifinais do Campeonato Brasileiro de 1977.
- O apelido dele era Aranha, o meu era bruce. Fui jogador daquela geração de 1976, 1977. Sempre foi muito determinado, com muito foco, e era ótimo goleirio. Parou cedo e já estava decidido a estudar para ser técnico – contou o amigo.
Líder
Como jogador, Micale já dava sinais de que poderia ser treinador. Em filmagens antigas, é possível ver o goleiro dando bronca em Robertinho. O perfil de liderança é confirmado por Amarildo Vieira, presidente da Portuguesa de Londrina, onde o então Aranha começou.
- Era bom goleiro. Líder, capitão. Sabia jogar. Era um líder tipo o Ronaldo, do Corinthians. Cobrava muito de jogador – disse Amarildo.
- Ele tem energia muito boa, gosta muito de conversa, é bem-humorado demais. Mas no trabalho é muito sério. Até para jogar bola era chato. Não gostava de perder – completou Robertinho.
O campo Spider Ball
Aposentado, Micale decidiu abrir um campo de grama sintética em Londrina, o primeiro da cidade. Passou a dar aulas numa escolinha. Foi ali que ele jogava com amigos em torneios disputadíssimos, em times como o New Boys e o Náutico.
- Ele construiu com material importado. E começou a dar aulas. Naquela época a grama sintética era mais seca, mais dura – lembrou Robertinho, parceiro de peladas e vítima de broncas.
Estudante
Quando parou de jogar, Micale estava decidido a ser treinador. Formou-se em Educação Física e começou na própria Portuguesa de Londrina. Desde o início, teve foco na base: passou por juvenil e juniores até assumir o profissional na segunda divisão paranaense.
- Ele não foi direto ser treinador. Dava aula de futebol para a molecadinha da escolinha dele. Eu costumava, em todos os jogos, ir no vestiário para tentar ajudar. Nos jogos do Rogério eu nunca fui, nem precisava. Ele não caiu de para-quedas – contou Amarildo.
Amigos famosos
Nos tempos de jogador e mesmo depois nas peladas, Micale conviveu com nomes famosos do futebol brasileiro. Campeão do mundo pelo Flamengo em 1981, o zagueiro Marinho era um deles. O atacante Élber, que fez sucesso no Bayern de Munique, foi companheiro no Londrina. E Héber Roberto Lopes apitou muitas partidas do campeonato amador da cidade, onde Aranha dava seus pulos.
- Era um torneio que tinha amigos, jogadores, ex-jogadores, no Iate Clube. Quem apitava era o Héber. O Marinho sempre jogava contra. Jogava muito. Era um zagueirão – recordou Micale.