Um novo depoimento pode mudar o rumo das investigações sobre a morte do torcedor boliviano no jogo do Corinthians na semana passada. Um rapaz de 17 anos diz que disparou o sinalizador que atingiu o menino durante o jogo. Ele deve se apresentar nesta segunda-feira (25) à Vara da Infância de São Paulo.
Segundo o advogado que cuida do caso, o rapaz deve se apresentar à justiça junto com a mãe, mas a confissão não inocenta automaticamente os torcedores presos na Bolívia. Eles são acusados pela polícia de serem cúmplices ou autores da morte do menino de 14 anos.
A Bolívia viveu neste fim de semana a comoção do enterro do garoto. A polícia vai levar em conta também outros elementos para investigar a participação dos 12 torcedores presos.
O garoto voltou de ônibus da Bolívia, por isso só chegou à São Paulo, onde mora, no sábado. Por ser menor de idade, não pode mostrar o rosto. Ao lado da mãe, o rapaz de 17 anos apresentou a versão dele para o que aconteceu na trágica noite.
“Eu confirmo que disparei o sinalizador marítimo em direção à torcida do time rival do Corinthians, mas foi sem intenção mesmo. Não fiz nenhum tipo de mira. Para mim, ia só acender e pronto, não sabia que o negócio ia sair voando assim ou algo parecido”, conta.
O jovem diz que comprou o sinalizador em São Paulo, mas que não sabia usá-lo. “É a primeira vez que eu levo sinalizador em um jogo de futebol, eu quis fazer uma coisa diferente, estou entrando agora na torcida. Falei: ‘Vou levar um sinalizador, vou fazer uma festa na arquibancada, uma festa para o Corinthians’”, lembra.
O garoto contou que viu quando a polícia boliviana prendeu os 12 corintianos. Ele estava por perto, mas como os policiais não o abordaram, ficou quieto. Ele disse também que, apesar de fazer parte da torcida organizada há dois anos, não conhecia os torcedores que foram detidos.
O garoto afirma que foram integrantes da Gaviões da Fiel que o orientaram a não se apresentar à polícia na Bolívia. “O pessoal me recomendou: ‘Não, é melhor não se entregar, porque nós estamos na Bolívia, você veio com a gente, você é nossa responsabilidade’”, diz.
Em um documento registrado em cartório, a mãe do adolescente autoriza a viagem dele, desacompanhado, à Bolívia. A versão apresentada pelo menor, que decidiu assumir o disparo do sinalizador, será apresentada nesta segunda-feira à Vara da Infância de São Paulo.
Enquanto isso, paralelamente, segue, na Bolívia, o inquérito policial que apura as responsabilidades pela morte do jovem Kevin. Este inquérito leva em conta outros testemunhos colhidos pela polícia da Bolívia, além da análise dos vídeos gravados durante o jogo e dos exames para detectar pólvora nas mãos de torcedores corintianos presos em Oruro.
Ainda não se sabe o que vai acontecer com o adolescente que diz ter feito o disparo. Segundo a especialista em direito internacional Maristela Basso, os dois países têm acordo de extradição, mas isso não se aplica a menores. “Se trata de um menor e, portanto, ele é submetido a uma legislação especial, tanto no Brasil quanto na Bolívia, muito semelhante à legislação protetiva das crianças. Todo o cuidado será tomado”, afirma.