Mato Grosso, 31 de Outubro de 2020
Política
Quase metade das mulheres já sofreu assédio sexual no trabalho; 15% delas pediram demissão, diz pesquisa
08.10.2020
09:16
FONTE: G1

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  • Pesquisa indica que o assédio sexual atinge mais negras e mulheres com rendimentos menores; apenas 5% delas recorrem ao RH das empresas para reportar o caso.

    O assédio sexual ainda é assunto tabu nas empresas porque as mulheres têm medo de expor que foram vítimas — Foto: Divulgação

Quase metade das mulheres já sofreu algum assédio sexual no trabalho, segundo pesquisa do LinkedIn e da consultoria de inovação social Think Eva, que ouviu 414 profissionais em todo o país, de forma online. Entre elas, 15% pediram demissão do trabalho após o assédio. E apenas 5% delas recorrem ao RH das empresas para reportar o caso.

 

De acordo com o levantamento, a maioria das entrevistadas que já sofreram alguma forma de assédio sexual no ambiente de trabalho são mulheres negras (52%) e que recebem entre dois e seis salários mínimos (49%). Além disso, o Norte (63%) e Centro-Oeste (55%) têm uma concentração de relatos superior às demais regiões.

 

A pesquisa mostra ainda que, mesmo entre as mulheres que ocupam posições hierárquicas mais altas, o assédio não deixa de ser uma realidade. Entre as entrevistadas que declararam desempenhar a função de gerente, 60% afirmaram terem sido vítimas de assédio. No caso de diretoras, o número chegou a 55%.

 

Mais de 95% das entrevistadas afirmam saber o que é assédio sexual no trabalho, mas pouco mais de 51% falam com frequência sobre o tema. Quanto maior o rendimento, maior a frequência com que as discussões acontecem. Veja abaixo:

-47%: até 2 salários mínimos

-54%: de 2 a 6 salários mínimos

-60%: 6 a mais de 8 salários mínimos

 

Entre as mulheres que mais falam sobre assédio, a maioria é de mulheres pretas ou pardas, ocupa cargos de gerência e tem acima de 55 anos:

-68% das mulheres declararam ocupar posições de gerência

-67% das mulheres têm acima de 55 anos

-57% das profissionais desempenham funções em nível pleno ou sênior

-54% das mulheres são pardas e pretas

 

Impunidade e medo desencorajam denúncia

Apenas 5% das mulheres recorrem ao departamento de RH das empresas para reportar um caso. O baixo índice de queixas está associado ao senso de impunidade, ineficiência de políticas internas e ao medo, além do sentimento de culpa pelo assédio sofrido.

 

A sensação de impotência faz com que o silêncio e a solidão sejam os resultados mais recorrentes. Metade delas prefere dividir o ocorrido apenas com pessoas próximas e 15% optam pela demissão:

-50%: contei para pessoas próximas

-33%: não fiz nada

-15%: pedi demissão

-14%: outros

-8%: recorri a sistemas de denúncia anônimos da minha empresa

-5%: recorri ao RH

-4%: recorri a grupos de apoio de minha empresa

-3%: recorri a grupos de apoio de fora da minha empresa

 

Apenas 15% das participantes que presenciaram uma situação de violência afirmaram ter auxiliado diretamente a vítima. Outras 10% não fizeram nada e apenas 4,3% disseram ter avisado o departamento de Recursos Humanos.

 

As participantes relataram que a maior barreira para a denúncia é a impunidade: 78,4% delas acreditam que nada de fato acontecerá caso denunciem o crime dentro das corporações em que trabalham.

 

Além disso, 64% afirmam que há um ciclo de descaso e que as pessoas diminuem os casos de assédio sexual. Com um percentual exatamente igual, outro fator que faz com que as mulheres evitem denunciar é o medo de serem expostas.

 

Maiores barreiras para a denúncia:

-78%: impunidade - nada de fato acontecerá

-64%: descaso - as pessoas diminuem o que aconteceu

-64%: medo de ser exposta

-60%: descrença - as pessoas dificilmente acreditam no que aconteceu

-60%: medo de ser demitida

-41%: colocariam a culpa em mim

-27%: falta de certeza se foi um assédio sexual

16%: sentimento de que a culpa foi minha - eu mereci / eu pedi

 

Dificuldade para identificar o assédio

Ao mesmo tempo em que as mulheres conversam sobre o assunto, existe um desconhecimento sobre as melhores formas de identificar situações de assédio sexual. Esse contexto aparece quando 10% das entrevistadas dizem não saber se já passaram por algum episódio de assédio, assim como outros 10% não sabem identificar situações correlatas em seus ambientes de trabalho.

 

As ações mais associadas ao assédio sexual são:

-92%: solicitação de favores sexuais

-91%: contato físico não solicitado

-60%: abuso sexual

 

Nos casos em que a mulher reconhece ter sido vítima de um caso de assédio, existe uma distorção entre a identificação e a reação. Os principais sentimentos que as vítimas relatam são raiva, nojo, medo, impotência, vergonha, humilhação e culpa. Em 15% dos casos, sentem-se confusas e em dúvida. E 10% acham que a culpa pela violência é delas.

 

A sensação de insegurança é maior entre mulheres com renda de até 2 salários mínimos (51%). Este mesmo grupo, assim como as participantes pretas e pardas (54%), também são maioria em afirmar que sentem vergonha por serem vítimas de assédio sexual. O índice chega a ser 10 pontos percentuais superior à média de mulheres com outros perfis.

 

A perda da autoconfiança é outra consequência relatada com frequência, assim como um impacto negativo na performance profissional, a sensação de que seriam culpabilizadas pelo que aconteceu ou que provocaram o episódio. Em todos esses casos, mulheres com um rendimento financeiro menor lideram os percentuais.

 

Além disso, as participantes afirmam terem sentimentos como cansaço (31,7%) e falta de confiança em si e nos outros (30,3%). Sintomas de ansiedade e depressão também são comuns e aparecem em quarto lugar no ranking:

-35%: constante medo e dificuldade

-32%: desânimo e cansaço

-30%: diminuição da autoconfiança

-28%: sintomas de ansiedade e/ou depressão

-23%: afastamento de colegas de trabalho

-22%: diminuição da autoestima

 

Para as entrevistadas, a construção de um ambiente profissional livre de assédio deve ter as seguintes ações das empresas:

-Adotem um posicionamento oficial e público

-Desenvolvam ações preventivas

-Criem uma ouvidoria especializada para acolhimento das vítimas

-Façam um monitoramento constante para avaliação das políticas e práticas

-Adotem um processo de denúncia seguro e transparente

-Elaborem um protocolo de encaminhamento dos casos com a punição do agressor

 

Assédio nas redes sociais

O LinkedIn também aplicou um questionário dentro da própria plataforma para analisar como as usuárias são atingidas por casos de assédio sexual nas redes sociais.

 

O Facebook aparece em primeiro lugar entre as redes com maior possibilidade de ocorrer assédio sexual, seguido pelo Instagram, Whatsapp, Twitter e LinkedIn.

 

Do total, 13,4% das mulheres afirmaram ter passado por casos de assédio no próprio LinkedIn. De 795 mulheres que usam o LinkedIn pelo menos uma vez ao dia, 29,8% dizem ter sido assediadas, 5,9% não têm certeza se já passou por isso e 44% informaram ter presenciado um caso na rede.

 

A maior parte dos casos aconteceu de forma velada, por meio de mensagens privadas (61,4%) seguida por comentários em artigos ou publicações (27,3%).

 

A maioria das mulheres não respondem às mensagens ou bloqueiam os contatos dos assediadores, não tomando medidas formais para isso como os mecanismos de denúncia da plataforma. Outras simplesmente abandonam a plataforma (18%).

 

Debate e mudança são necessários

De acordo com Maíra Liguori, diretora de impacto da Think Eva, o assédio sexual era, até pouco tempo, naturalizado e legitimado no ambiente de trabalho, mas é uma violência de gênero que traz danos profundos e traumas irreversíveis para as profissionais.

 

“O ambiente corporativo ainda encontra dificuldades em assumir sua parte nessa mudança cultural. Ao fechar os olhos para este problema, reproduz os mesmos comportamentos que, direta ou indiretamente, protegem o agressor e reforçam um cenário perverso em que ele, por sinal, é o único que não sai perdendo. A vítima é revitimizada e excluída do mercado, a própria empresa perde talentos e a diversidade de seu corpo de funcionários e a comunidade segue vendo a violência ser perpetuada", destaca.

 

Para Ana Plihal, diretora de soluções de talentos e líder do Comitê de Mulheres para o LinkedIn Brasil, é preciso trazer a discussão para um nível de consciência e de quebra de estruturas pouco eficazes em casos de denúncia.

 

“Temos como objetivo chamar lideranças empresariais a assumirem um compromisso público e aberto de combate ao assédio sexual no ambiente de trabalho, conclamando para a adoção de ações preventivas de contenção e proporcionando, assim, um ambiente mais seguro", afirma.

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